


A inteligência artificial será o principal motor de crescimento da Amazon Web Services (AWS) nos próximos anos e deve transformar a empresa em um negócio de centenas de bilhões de dólares em receita anual. A projeção é de Matt Garman, CEO global da AWS, que concedeu entrevista exclusiva à Bloomberg Línea durante o evento AWS re:Invent 2025, realizado em Las Vegas, nos Estados Unidos.
No comando da AWS há cerca de 18 meses, Garman afirma que a empresa vive um ponto de inflexão na forma de inovar, impulsionado pela rápida evolução da IA generativa e, principalmente, dos agentes de IA — sistemas capazes de executar tarefas de forma autônoma dentro dos processos de negócio.
“A IA vai ser, provavelmente, um negócio de centenas de bilhões de dólares ao longo do tempo para nós”, afirmou o executivo.
Chips proprietários já movimentam bilhões
Um dos pilares dessa nova fase é o investimento pesado da AWS em chips próprios de inteligência artificial, a linha Trainium. Segundo Garman, a companhia já implantou mais de 1 milhão de chips Trainium, lançou o Trainium3 e já trabalha no Trainium4.
Atualmente, o Trainium2 já alimenta mais da metade do tráfego do Amazon Bedrock, a plataforma de IA generativa da AWS. Além disso, empresas como a Anthropic, desenvolvedora do modelo Claude, utilizam exclusivamente essa infraestrutura para treinar seus modelos mais recentes.
“O Trainium já representa um negócio de múltiplos bilhões de dólares. É um negócio importante e está crescendo muito rapidamente”, afirmou o CEO. Segundo ele, há cargas de trabalho em que o Trainium entrega até quatro vezes mais desempenho pela metade do custo, comparado a alternativas tradicionais baseadas apenas em GPUs.
Agentes de IA destravam o retorno sobre investimento
Na avaliação de Garman, parte da frustração inicial com a IA ocorreu porque muitas empresas ficaram restritas a provas de conceito, sem retorno claro sobre investimento (ROI). Esse cenário começou a mudar nos últimos seis meses com o avanço dos agentes de IA, que passaram a assumir funções operacionais reais nos negócios.
Durante o re:Invent, entre 60% e 70% dos clientes afirmaram já enxergar ou esperar enxergar ROI nos próximos seis meses. Para o executivo, a virada acontece quando as empresas conseguem aplicar IA com governança, segurança, rastreabilidade e controle.
“Quando você tem os guardrails certos, os clientes passam a confiar a IA para cargas de trabalho de missão crítica. É aí que o valor real aparece”, explicou.
AWS deve atingir US$ 132 bilhões em 2025
A AWS deve fechar 2025 com receita estimada em US$ 132 bilhões, crescendo cerca de 20% ao ano. Embora seja difícil separar exatamente quanto desse crescimento vem exclusivamente da IA, Garman destaca que hoje todas as aplicações já nascem integradas com inteligência artificial.
Plataformas como Amazon Bedrock, SageMaker, GPUs e o próprio Trainium já formam um ecossistema de negócios bilionários dentro da companhia.
América Latina é estratégica e receberá US$ 11 bilhões
A América Latina ocupa posição estratégica nos planos da AWS. Segundo Garman, a empresa seguirá investindo fortemente em países como Brasil, México e Chile, com US$ 11 bilhões previstos em novos aportes nos próximos anos.
O Brasil, que já abriga múltiplos data centers da AWS, segue como um dos principais mercados de crescimento da empresa no mundo. Mesmo com investimentos agressivos de concorrentes como Microsoft e Google, Garman afirma que a AWS continua crescendo mais rápido do que os rivais na região.
“A inovação que está sendo criada na América Latina é incrível, com disrupções em muitas indústrias. É uma região onde estamos comprometidos em crescer por décadas”, destacou.
IA como motor de salto tecnológico
Para o CEO da AWS, a ascensão da IA agêntica pode permitir que países emergentes deem um salto tecnológico, acelerando processos de inovação e competitividade global. O crescimento do ecossistema de startups na América Latina é apontado como um dos principais motores dessa transformação.
“Quando vemos startups nascendo já com essas tecnologias, elas exigem o que há de mais moderno e ao menor custo. Isso cria um ciclo virtuoso de inovação”, avaliou.
Inovação cada vez mais imprevisível
Garman também revelou que a velocidade da transformação tecnológica é tão intensa que a própria AWS está abandonando modelos tradicionais de planejamento de longo prazo.
“Eu costumava pedir roadmaps de 18 meses. Estou revertendo isso porque nos movemos tão rápido que essa ideia não faz mais sentido”, afirmou.
Para ele, a combinação entre nuvem, IA, agentes autônomos e chips proprietários está mudando a base da computação global — e a AWS pretende liderar esse movimento nas próximas décadas.